Um em cada 10 estudantes do ensino fundamental de Minas é reprovado ao fim de cada ano. No Brasil, a taxa é ainda maior e atinge a marca de 11,8%, o que, em números absolutos, significa 3,6 milhões de alunos obrigados a conviver com o fracasso da “bomba”, segundo dados do Censo Escolar 2008 do Ministério da Educação (MEC). Os índices, considerados altos por especialistas em educação, levantam a pergunta: a culpa pela reprovação é do sistema, que não cria ferramentas para tornar a escola mais eficiente e atrativa, ou do próprio aluno? A questão será debatida em seminário hoje, em Belo Horizonte. No encontro, também será apresentada pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre o impacto da repetência no desempenho escolar, à qual o Estado de Minas teve acesso com exclusividade.
O estudo, coordenado pela pesquisadora do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG) Luciana Soares Luz, comparou os níveis de aprendizado de mais de 5 mil alunos dos anos finais do ensino fundamental (7ª e 8ª séries) de seis estados – Rondônia, Pará, Pernambuco, Sergipe, Mato Grosso do Sul e Goiás. A principal conclusão da análise, que a partir deste ano deve ser estendida ao restante do país, é que o ganho de conhecimento obtido pelos alunos que repetem o ano escolar é menor que o dos demais estudantes.
Isso ocorre, segundo a pesquisadora, porque a repetência causa tantos prejuízos à autoestima dos alunos que deixa de ser eficiente como uma segunda chance para o aprendizado. “O grande problema da reprovação é que se põe nas costas do aluno toda a responsabilidade pelo fracasso. A escola continua a mesma, o professor não muda os métodos de ensino e não se troca o material didático, ou seja, a estrutura escolar continua idêntica. E cabe apenas ao aluno repetir aquele ciclo de ensino, muitas vezes levando adiante as mesmas dificuldades”, explica Luciana, acrescentando que, para criar parâmetros confiáveis, a pesquisa avaliou crianças com características semelhantes tanto do ponto de vista socioeconômico quanto do nível de aprendizagem.
Durante o seminário, a pesquisadora da UFMG vai mostrar como a avaliação pode ajudar na elaboração de políticas públicas eficientes. O debate será mediado pelos especialistas em educação Renato Júdice de Andrade, gerente da área técnica do Instituto Avalia Educacional, e Naércio Menezes, da Universidade de São Paulo (USP). “É preciso avaliar resultados para construir boas estratégias políticas. Ao se pensar em políticas públicas, o ideal é ter em mente que o caminho não é a reprovação, pois ela não é eficiente para recuperar os alunos e ainda se transforma em fator agravante para a evasão escolar”, diz Renato Júdice.
Experiências
Com três reprovações no currículo, Bruno Cézar Pozzi, de 17 anos, sabe bem o peso da “bomba” escolar. Aluno da 8ª série da Escola Estadual Silviano Brandão, no Bairro Lagoinha, Região Noroeste de BH, ele conta que o mais difícil é o relacionamento os colegas. “Já pensei em deixar a escola várias vezes. É muito ruim ver os amigos seguindo em frente e você ficando para trás.” Colega dele, Hully de Jesus Rodrigues, também de 17, enfrentou uma reprovação no ano passado e agora tenta aproveitar a chance de aprender mais. “A experiência é horrível e fiquei arrasada. Mas tenho pensado que estou tendo uma segunda oportunidade de estudar”, disse.
Fonte: http://www.correioweb.com.br/euestudante/noticias.php?id=11772
sexta-feira, 18 de junho de 2010
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